Um véu esbranquiçado cobrindo a pupila, um pet que passou a esbarrar em móveis que sempre conheceu, hesitação para descer escadas no escuro — esses são sinais clássicos de catarata em cães e gatos, uma das causas mais comuns de perda de visão em animais de estimação. A condição costuma se instalar de forma lenta, o que faz muitos tutores perceberem o problema só quando a visão já está bastante comprometida.
Diferente do que muita gente pensa, catarata não é uma “membrana” que cresce sobre o olho, nem se confunde com a esclerose nuclear (o embaçamento azulado, normal do envelhecimento, que não costuma afetar a visão de forma significativa). É uma opacidade real do cristalino, a lente interna do olho, e pode evoluir até a cegueira completa se não for acompanhada.
Este artigo explica como reconhecer os sinais de catarata em cães e gatos, quais são as causas mais frequentes em cada espécie, como o diagnóstico é feito, quando a cirurgia entra em discussão e quais cuidados ajudam o pet a se adaptar no dia a dia — sempre com a ressalva de que só um médico-veterinário oftalmologista pode confirmar o diagnóstico e indicar a conduta adequada.
O que é a catarata em cães e gatos
O cristalino é uma estrutura transparente localizada atrás da íris, responsável por focar a luz na retina. Quando as proteínas que compõem essa lente perdem sua organização normal, formam-se áreas opacas — a catarata. Dependendo da extensão, a opacidade pode ser pontual (catarata incipiente, que ainda não afeta muito a visão) ou tomar todo o cristalino (catarata madura, associada a cegueira funcional no olho afetado).
Em cães, a catarata é consideravelmente mais comum do que em gatos. Isso não significa que felinos estejam livres do problema — apenas que, quando aparece em gatos, costuma estar mais associada a uma causa secundária, como inflamação intraocular, do que a uma predisposição genética isolada, que é o padrão mais visto em várias raças caninas.
Sintomas de catarata em cães e gatos
Os sinais variam conforme o estágio da doença. No início, muitas vezes passam despercebidos; em fases mais avançadas, ficam evidentes mesmo para quem não está prestando atenção especial ao olho do animal.
- Opacidade esbranquiçada ou acinzentada na pupila: o sinal mais característico, visível a olho nu quando o cristalino já está comprometido em boa parte da sua extensão.
- Dificuldade de enxergar em ambientes com pouca luz: muitos tutores notam que o pet passa a hesitar mais à noite ou em cômodos escuros, antes mesmo de qualquer alteração visível no olho.
- Esbarrar em móveis ou objetos: principalmente em ambientes novos ou quando os móveis são reorganizados — em casa, o animal muitas vezes já memorizou o trajeto e compensa a perda de visão por um tempo.
- Mudança de comportamento: mais cautela ao pular, recusa em descer escadas, menos disposição para brincar ou explorar.
- Olho avermelhado, lacrimejamento ou dor aparente: quando presentes, podem indicar complicação associada, como uveíte induzida pela catarata ou glaucoma secundário, e merecem avaliação rápida.
- Perda de brilho no olhar: tutores atentos costumam descrever essa mudança de forma subjetiva, antes de conseguir apontar exatamente o que está diferente.
Vale reforçar que nem toda opacidade ocular é catarata. A esclerose nuclear senil, comum em cães e gatos a partir dos 8-9 anos, também dá um aspecto azulado ao cristalino, mas normalmente não compromete a visão de forma relevante. Diferenciar as duas condições exige exame oftalmológico especializado — por isso, qualquer alteração perceptível no olho do pet merece avaliação profissional antes de qualquer conclusão em casa.
Causas mais comuns em cães
Em cães, a catarata tem algumas origens bem documentadas:
- Predisposição genética/hereditária: raças como Poodle, Cocker Spaniel, Schnauzer Miniatura, Bichon Frisé e Husky Siberiano têm incidência mais alta de catarata hereditária, que pode surgir ainda em cães jovens.
- Diabetes mellitus: é uma das causas mais rápidas e agressivas de catarata em cães. O excesso de glicose no humor aquoso do olho altera o metabolismo do cristalino, e a opacidade pode se instalar em poucas semanas após o diagnóstico de diabetes — em alguns casos, chega a comprometer os dois olhos quase ao mesmo tempo.
- Envelhecimento (catarata senil): processo mais gradual, ligado ao desgaste natural das proteínas do cristalino ao longo dos anos.
- Traumas oculares: pancadas, perfurações ou lesões que atingem diretamente o cristalino podem desencadear opacidade localizada.
- Uveíte e outras inflamações oculares crônicas: processos inflamatórios prolongados dentro do olho também favorecem a formação de catarata secundária.

Causas mais comuns em gatos
Em felinos, o quadro é um pouco diferente:
- Uveíte crônica: é a causa mais frequente de catarata em gatos, muitas vezes associada a doenças infecciosas (como FeLV, FIV ou toxoplasmose) ou processos inflamatórios idiopáticos.
- Traumas oculares: gatos que vivem em ambientes externos estão mais expostos a brigas e acidentes que podem lesionar o olho.
- Catarata congênita: alguns filhotes já nascem com opacidade no cristalino, geralmente ligada a infecções da mãe durante a gestação ou fatores hereditários.
- Envelhecimento: menos comum como causa isolada em gatos do que em cães, mas ainda ocorre, principalmente em felinos acima de 12 anos.
Por isso, sempre que um gato apresenta opacidade ocular, o veterinário costuma investigar também a causa de base — não adianta tratar só a catarata se a uveíte que a originou continuar ativa.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico começa com um exame oftalmológico completo, que inclui avaliação da córnea, da câmara anterior, da pressão intraocular (para descartar glaucoma) e do próprio cristalino com auxílio de lâmpada de fenda. Em muitos casos, o veterinário também dilata a pupila com colírio específico para visualizar melhor a extensão da opacidade e checar a saúde da retina por trás dela.
Exames complementares, como ultrassonografia ocular, eletrorretinografia (para avaliar se a retina ainda funciona antes de indicar cirurgia) e exames de sangue (glicemia, sorologias para FeLV/FIV em gatos) costumam entrar no protocolo, principalmente quando a cirurgia está sendo considerada. Segundo a American College of Veterinary Ophthalmologists, uma parcela significativa dos cães diabéticos desenvolve catarata dentro do primeiro ano após o diagnóstico da diabetes, o que reforça a importância de acompanhamento oftalmológico regular nesses pacientes.
Catarata em cães e gatos tem cura? Quando a cirurgia é indicada
A cirurgia de facoemulsificação — técnica que remove o cristalino opaco e, na maioria dos casos, implanta uma lente artificial no lugar — é atualmente o único tratamento capaz de restaurar a visão em um olho com catarata avançada. Não existe colírio, suplemento ou medicamento oral comprovadamente capaz de reverter uma catarata já formada; o que existe são produtos de suporte à saúde ocular geral, que não substituem a intervenção cirúrgica quando ela é necessária.
A indicação cirúrgica depende de uma avaliação individual, que geralmente considera:
- Grau de comprometimento da visão e impacto na qualidade de vida do animal.
- Saúde geral do pet e condições que possam contraindicar anestesia (a cirurgia exige anestesia geral).
- Função da retina, confirmada por eletrorretinografia — se a retina já não funciona, a cirurgia não devolve a visão.
- Presença de complicações associadas, como uveíte ativa ou glaucoma, que podem precisar ser controladas antes do procedimento.
- Expectativas realistas do tutor quanto a custos, cuidados pós-operatórios e possíveis complicações.
Nem todo cão ou gato com catarata precisa operar. Em casos unilaterais, com o outro olho enxergando bem, ou em pacientes idosos com outras comorbidades relevantes, muitos veterinários optam por acompanhamento clínico e adaptação do ambiente em vez da cirurgia — sempre pesando riscos e benefícios caso a caso.
Tratamento clínico x cirúrgico: o que cada abordagem oferece
| Abordagem | O que faz | Restaura a visão? | Quando costuma ser indicada |
|---|---|---|---|
| Colírios anti-inflamatórios | Controlam inflamação associada, reduzem desconforto | Não | Antes/depois da cirurgia ou em casos não operáveis |
| Suplementos com antioxidantes | Suporte geral à saúde ocular | Não | Como coadjuvante, nunca como tratamento isolado |
| Controle da diabetes (em cães) | Reduz progressão da catarata diabética | Não reverte a já formada | Assim que o diagnóstico de diabetes é confirmado |
| Cirurgia de facoemulsificação | Remove o cristalino opaco e implanta lente | Sim, na maioria dos casos elegíveis | Catarata madura com retina funcional e paciente apto à anestesia |
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Cuidados no dia a dia com um pet com catarata
Enquanto a cirurgia não é (ou não pode ser) realizada, alguns ajustes ajudam o cão ou gato a se adaptar melhor à perda gradual de visão:
- Evite mudar os móveis de lugar com frequência: pets com baixa visão memorizam o layout da casa e se orientam por ele.
- Mantenha objetos perigosos fora do caminho: cantos afiados, escadas sem proteção e piscinas merecem atenção redobrada.
- Use comandos de voz consistentes: avisar antes de tocar no animal ou indicar obstáculos com palavras específicas ajuda a reduzir sustos.
- Reforce a iluminação em casa: ambientes bem iluminados facilitam a locomoção de pets com visão parcial.
- Não deixe de tratar causas de base: se a catarata está ligada a diabetes ou uveíte, o controle dessas condições é tão importante quanto o cuidado ocular direto.
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A catarata costuma ser mais comum em pets idosos, que também merecem uma rotina geral de cuidados adaptada à idade — sobre isso, já tratamos em detalhe no artigo sobre cuidados com cachorro idoso.
Quando procurar o veterinário
Alguns sinais pedem avaliação rápida, sem esperar a próxima consulta de rotina:
- Opacidade que surgiu ou piorou em poucos dias, principalmente em cães diabéticos.
- Olho vermelho, inchado ou com secreção associada à opacidade.
- Sinais de dor: o pet evita que toquem no olho, mantém a pálpebra semicerrada ou esfrega o rosto com frequência.
- Perda súbita de visão em um ou nos dois olhos.
- Pupila com tamanho muito diferente entre os dois olhos.
Nenhum desses sinais deve ser interpretado ou tratado sem exame presencial. Catarata pode conviver com condições mais graves, como glaucoma e descolamento de retina, que exigem intervenção rápida para preservar o olho e, em alguns casos, evitar dor crônica.
Conclusão
A catarata em cães e gatos é uma condição que evolui de forma silenciosa na maior parte dos casos, e o primeiro passo do tutor é simplesmente prestar atenção: opacidade visível na pupila, hesitação em ambientes escuros ou mudanças sutis de comportamento já são motivo suficiente para agendar uma avaliação oftalmológica veterinária, sem esperar que a visão piore ainda mais.
Nem todo caso de catarata precisa de cirurgia, mas todo caso precisa de acompanhamento — para monitorar a progressão, identificar complicações a tempo e, quando indicado, discutir com o médico-veterinário oftalmologista se a cirurgia de facoemulsificação é uma opção viável para o seu cão ou gato. O diagnóstico correto e a decisão sobre tratamento sempre dependem de exame clínico especializado, feito presencialmente.
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Este artigo tem caráter informativo.



